A movimentação logística do comércio eletrônico mudou o mapa de Rondônia nos últimos dois anos. Pela primeira vez na série histórica do Mapa da Logística, divulgado pela Loggi em 2025, o estado entrou no grupo dos dez que mais recebem encomendas no Brasil.
O dado marca uma virada estrutural: o consumidor rondoniense, antes restrito ao varejo físico das principais cidades, hoje compra praticamente qualquer produto pela internet, com tempos de entrega cada vez menores.
A escala da transformação aparece também nos dados oficiais do governo estadual. Segundo o Relatório Semanal de Dados do Desenvolvimento Econômico de março de 2025, produzido pela Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico de Rondônia, com apoio da Secretaria de Estado de Finanças, o comércio rondoniense fechou 2024 com aumento de 20% no faturamento em relação ao ano anterior. A indústria cresceu 19%, e a agropecuária bateu R$ 18 bilhões, alta de 13%.
Por trás dessa expansão, há um movimento silencioso que muda a forma como o pequeno comerciante de Alta Floresta D’Oeste, Rolim de Moura ou Cacoal disputa a atenção do consumidor: a compra começa no Google, não na vitrine. E é exatamente aí que a maioria dos negócios locais tem perdido espaço.
O consumidor da Zona da Mata já comprou três vezes antes de entrar numa loja física
Pesquisas de comportamento de consumo no varejo brasileiro mostram que mais da metade das decisões de compra hoje passam por uma busca prévia na internet.
Quando o consumidor digita o nome de um produto, de um serviço ou de uma categoria, ele recebe duas categorias de resultado: os anúncios pagos, marcados como tal, e os resultados orgânicos, considerados mais confiáveis pelo próprio usuário.
A diferença de peso entre os dois é significativa. Levantamentos do mercado de busca apontam que cerca de 53% de todo o tráfego recebido pelos sites comerciais vem de resultados orgânicos do Google.
E, quando o usuário olha para a tela de resultados, os links naturais concentram 94% dos cliques, deixando apenas 6% para os anúncios visíveis no topo da página. O dado mostra por que muitas empresas que investem somente em mídia paga sentem o resultado cair no momento em que a campanha é desligada.
A consequência prática é direta. O empresário que aparece bem nas buscas por produtos e serviços da sua cidade recebe um fluxo constante de visitantes sem precisar pagar por cada clique.
O que aparece somente nos anúncios pagos, ao contrário, vê o tráfego desaparecer no exato momento em que o orçamento de mídia é interrompido.
O recorde de empresas abertas e a fila digital
Rondônia registrou um marco em 2026: mais de 11 mil empresas abertas apenas no primeiro trimestre do ano, número considerado recorde histórico pela Junta Comercial do Estado.
A digitalização dos processos cartoriais e a redução de custos de abertura, que caíram de uma média de R$ 5.099 para R$ 388 nos municípios de maior movimento, ampliaram o ritmo de formalização.
O problema é que abrir uma empresa é apenas o começo. A fila de competidores que disputam o mesmo consumidor cresceu na mesma proporção. Em segmentos sensíveis como moda, alimentação, beleza, materiais de construção, suplementos e serviços profissionais, o lojista de Cacoal não disputa mais apenas com o vizinho de rua.
Ele disputa com lojas virtuais de Porto Velho, Cuiabá, Goiânia, São Paulo e, em vários casos, com plataformas internacionais que entregam em todo o estado.
Quem aparece primeiro nos resultados do Google leva a venda. Quem aparece na segunda página, na prática, não existe para o consumidor.
Por que os pequenos negócios de Rondônia não aparecem
A invisibilidade digital tem causas conhecidas, mas pouco enfrentadas pelos pequenos varejistas do estado. A primeira é estrutural: a maioria dos sites de comércio local foi montada para parecer profissional, não para ser encontrado pelo Google.
Página de abertura bonita, fotos boas, mas sem o trabalho técnico que faz o site competir nas buscas, como otimização de palavras-chave, velocidade de carregamento adequada e estrutura interna de links.
A segunda causa é a falta de autoridade do domínio. O Google trata cada site como uma entidade com reputação, e essa reputação se constrói, em grande parte, a partir de quantos outros sites de qualidade o citam por meio de links.
Esses links externos, chamados de backlinks, funcionam como votos de confiança que outros sites dão para o seu. Quanto mais relevantes esses sites forem, maior é o peso do voto.
Para o pequeno e médio empresário que está construindo presença digital, vale entender desde cedo como funcionam os backlinks brasileiros que efetivamente movem o ponteiro do posicionamento.
Não é qualquer link que ajuda. Links em sites sem credibilidade, sem público real ou em portais punidos pelo Google podem ter o efeito contrário e prejudicar o domínio.
A terceira causa é cultural. O empresário do interior de Rondônia, em geral, foi formado em um ambiente onde investimento em marketing significava panfleto, rádio, fachada e outdoor.
A migração para o digital ainda é encarada como despesa, e não como ativo. O resultado prático é que o concorrente que entendeu o jogo antes leva o cliente, mesmo estando a centenas de quilômetros de distância.
O custo de ignorar a busca orgânica em um mercado em alta
A escolha entre tráfego pago e tráfego orgânico não é uma decisão de gosto. É uma decisão de modelo de negócio. Campanhas pagas geram visitas no mesmo dia em que são ativadas, o que torna o canal atraente para quem precisa de resultado imediato.
O problema aparece a partir do segundo ou terceiro ano de operação, quando o custo por clique sobe, a concorrência aumenta e a empresa percebe que continua dependente da mesma planilha de mídia paga, sem ter construído nenhum ativo próprio.
Pesquisas do setor mostram que 49% das empresas reconhecem a busca orgânica como o canal com melhor retorno sobre investimento em prazos mais longos. No segmento B2B, onde os ciclos de decisão são extensos e a confiança do comprador pesa, esse índice chega a 59%.
Mesmo assim, a alocação de orçamento ainda é desbalanceada: cerca de 72% do investimento em marketing digital vai para mídia paga, contra menos de 30% destinados ao orgânico.
Antes de definir onde colocar o investimento, vale entender em profundidade as diferenças e vantagens entre tráfego orgânico e pago. O equilíbrio entre os dois canais costuma definir não só o custo de aquisição de cliente, mas também a previsibilidade da receita ao longo dos anos.
Para Rondônia, onde o varejo cresce em ritmo acima da média nacional e o e-commerce começa a entrar de fato no estado, esse desequilíbrio cobra um preço alto.
Negócios que poderiam aparecer com regularidade nas buscas por produtos locais permanecem dependentes de campanhas pontuais, com pouca recorrência e custo crescente.
O que muda quando o pequeno negócio entra na busca
Em mercados regionais que já enfrentaram esse mesmo movimento de virada, como o interior paulista, a Serra Gaúcha e o Oeste Catarinense, a experiência mostra um padrão.
Os negócios que começaram cedo a estruturar conteúdo próprio, otimizar o site e construir uma rede consistente de citações em portais de notícias e veículos especializados conquistaram posição estável no Google em prazos de seis a doze meses. A partir desse ponto, o custo por venda cai e a receita orgânica se torna previsível.
Em Rondônia, o cenário ainda é favorável para quem se mover primeiro. A concorrência por palavras-chave locais é menor do que em estados do Sudeste, o que reduz o tempo necessário para conquistar boas posições.
Termos como “loja de roupas em Cacoal”, “móveis planejados Rolim de Moura”, “advogado Ji-Paraná” ou “consultório odontológico em Alta Floresta D’Oeste” ainda podem ser disputados com investimento moderado, desde que a estratégia combine produção de conteúdo útil, ajustes técnicos no site e construção de autoridade.
A janela, no entanto, tende a se fechar. À medida que mais empresas locais entendem o jogo e começam a investir em SEO, o custo de entrada sobe. Os primeiros a se posicionar geralmente mantêm a posição com investimento menor do que os que chegam depois.
O papel dos portais regionais nessa equação
A virada digital de Rondônia não acontece só pela ação dos comerciantes. Os portais regionais, que cobrem cidades como Cacoal, Rolim de Moura, Pimenta Bueno, Ji-Paraná e Alta Floresta D’Oeste, ganham um papel central no novo cenário.
Anderson Alves, CEO da QMIX Digital, agência referência em backlinks na capital de Goiás, explica que são esses veículos que ajudam a construir a presença digital do estado nas buscas, ao publicar conteúdo informativo e relevante para a economia local.
Para o consumidor, isso significa encontrar respostas qualificadas a uma distância de um clique. Para o pequeno empresário, abre uma janela de visibilidade que dificilmente conseguiria sozinho.
A combinação entre portais regionais ativos, comércio local crescente e infraestrutura logística em expansão coloca a Zona da Mata em uma posição rara no mapa do varejo brasileiro: a de uma região com tudo para crescer no digital, desde que aproveite o momento.
O que o pequeno empresário pode fazer agora
A primeira providência é entender em que estágio o próprio negócio está. Vale digitar no Google as palavras-chave que um cliente provavelmente usaria para encontrar o seu produto ou serviço na sua cidade. Se a empresa não aparece na primeira página, há trabalho a fazer.
A segunda é avaliar a qualidade do site. Velocidade, estrutura de páginas, presença de conteúdo útil, descrições de produtos bem escritas e dados de contato visíveis fazem parte da higiene básica. Sites lentos ou com falhas técnicas dificilmente sobem nos resultados, por melhor que seja o produto vendido.
A terceira é entender que o crescimento orgânico exige tempo. Os primeiros sinais aparecem entre três e seis meses, e os resultados sólidos costumam consolidar-se a partir do primeiro ano.
Para quem precisa de fluxo de caixa imediato, faz sentido combinar a estratégia orgânica com campanhas pagas pontuais, mas tratando o orgânico como o investimento que constrói o ativo de longo prazo.
A entrada de Rondônia na rota nacional do e-commerce não vai esperar. Os pacotes já chegam à Zona da Mata, o consumidor já compra pela internet e o varejo já cresce. A pergunta é se os comerciantes locais vão estar nos resultados quando a próxima busca acontecer.
Com o objetivo de preservar as condições de uso das estradas e contribuir para o deslocamento da população, a RO-479 no trecho entre Rolim de Moura sentido a BR-364, recebeu serviços de manutenção asfáltica em 37 quilômetros de extensão. A obra foi executada pelo Departamento Estadual de Estradas de Rodagem e Transportes (DER-RO), através da Usina de Asfalto de Cacoal.Para o governador de Rondônia, Marcos Rocha, a conservação das rodovias estaduais é fundamental para facilitar o transporte de pessoas e mercadorias, além de fortalecer a atividade produtiva. Essas melhorias também contribuem para o desenvolvimento econômico e para o atendimento das necessidades da população em diferentes regiões do estado
De acordo com o diretor-geral do DER-RO, Diego Muniz, a execução dos serviços de manutenção é essencial para conservar o pavimento e ampliar as condições de circulação nas vias. “Temos trabalhado para manter a malha viária em condições adequadas de uso, atendendo trechos importantes para a mobilidade da população. A obra executada demonstra a atuação das equipes na conservação das estradas e no atendimento às necessidades de trafegabilidade”, ressaltou.
O coordenador de Usinas de Asfalto (COUSA), Lucas Albuquerque, explicou que os serviços de manutenção são importantes para preservar as condições do pavimento e contribuir para uma circulação mais segura e confortável ao longo do trecho atendido.
“Manter o asfalto em boas condições exige acompanhamento e serviços realizados de acordo com as necessidades de cada rodovia. Na RO-479, os serviços contribuem para melhorar a superfície de rolamento e oferecer condições mais adequadas para os motoristas que passam nesse trajeto”, pontuou.
O gerente da Usina de Asfalto de Cacoal, Sebastião Cardoso, destacou a importância da manutenção para quem passa pela rodovia diariamente. “A manutenção desse trajeto é importante porque contribui para melhorar a tráfego e facilitar o acesso entre a região de Rolim de Moura e a BR-364 para atividades diária.”
Com o objetivo de preservar as condições de uso das estradas e contribuir para o deslocamento da população, a RO-479 no trecho entre Rolim de Moura sentido a BR-364, recebeu serviços de manutenção asfáltica em 37 quilômetros de extensão. A obra foi executada pelo Departamento Estadual de Estradas de Rodagem e Transportes (DER-RO), através da Usina de Asfalto de Cacoal.Para o governador de Rondônia, Marcos Rocha, a conservação das rodovias estaduais é fundamental para facilitar o transporte de pessoas e mercadorias, além de fortalecer a atividade produtiva. Essas melhorias também contribuem para o desenvolvimento econômico e para o atendimento das necessidades da população em diferentes regiões do estado
De acordo com o diretor-geral do DER-RO, Diego Muniz, a execução dos serviços de manutenção é essencial para conservar o pavimento e ampliar as condições de circulação nas vias. “Temos trabalhado para manter a malha viária em condições adequadas de uso, atendendo trechos importantes para a mobilidade da população. A obra executada demonstra a atuação das equipes na conservação das estradas e no atendimento às necessidades de trafegabilidade”, ressaltou.
O coordenador de Usinas de Asfalto (COUSA), Lucas Albuquerque, explicou que os serviços de manutenção são importantes para preservar as condições do pavimento e contribuir para uma circulação mais segura e confortável ao longo do trecho atendido.
“Manter o asfalto em boas condições exige acompanhamento e serviços realizados de acordo com as necessidades de cada rodovia. Na RO-479, os serviços contribuem para melhorar a superfície de rolamento e oferecer condições mais adequadas para os motoristas que passam nesse trajeto”, pontuou.
O gerente da Usina de Asfalto de Cacoal, Sebastião Cardoso, destacou a importância da manutenção para quem passa pela rodovia diariamente. “A manutenção desse trajeto é importante porque contribui para melhorar a tráfego e facilitar o acesso entre a região de Rolim de Moura e a BR-364 para atividades diária.”
Por meio de projetos educativos junto às escolas, ações de conscientização e serviços de acolhimento, o Ministério Público de Rondônia atua na prevenção da violência de gênero e no fortalecimento da rede de proteção.
Projeto do MP de Rondônia, Maria da Penha Vai à Escola
A violência contra meninas e mulheres nem sempre começa com uma agressão física. O controle sobre as roupas, a vigilância do celular, o afastamento de amigos e familiares, a humilhação e o ciúme excessivo também podem indicar comportamentos abusivos. Quando essas atitudes são interpretadas como demonstrações de amor ou cuidado, reconhecer os primeiros sinais de violência se torna mais difícil.
A prevenção passa pela educação, pelo diálogo e pela participação de diferentes setores da sociedade. Família, escola, comunidade e instituições de proteção têm papéis importantes na construção de relações baseadas no respeito, no consentimento e na igualdade de direitos.
Em Rondônia, iniciativas como o projeto Maria da Penha Vai à Escola, do Ministério Público do Estado de Rondônia (MPRO), levam o debate sobre violência contra meninas e mulheres ao ambiente escolar. Ao mesmo tempo, profissionais da educação e especialistas destacam a necessidade de ações contínuas, formação dos educadores e participação das famílias para que a prevenção não se limite a atividades pontuais.
Como os adolescentes aprendem sobre relacionamentos?
A família costuma ser o primeiro espaço em que crianças observam como as pessoas se relacionam, demonstram afeto e lidam com conflitos. Na adolescência, essas referências se somam às experiências na escola, às amizades e aos conteúdos consumidos nas redes sociais.
Segundo a psicóloga Julyana Pereira Bishop Camata, a necessidade de pertencimento pode levar adolescentes a reproduzir comportamentos e opiniões para serem aceitos por um grupo. As redes sociais também ampliam o acesso à informação, mas podem reforçar estereótipos e padrões irreais de relacionamento.
Essa combinação de referências ajuda a compreender por que alguns jovens interpretam o ciúme excessivo, o controle do celular e as restrições às amizades como demonstrações de amor. Durante as primeiras experiências afetivas, eles ainda estão construindo suas opiniões sobre relacionamentos e aprendendo a diferenciar cuidado de controle.
“Entre os sinais de alerta estão humilhações, ameaças, manipulações emocionais, chantagem, invasão de privacidade e desrespeito à recusa. Essas atitudes podem surgir antes de uma agressão física e, quando são tratadas como naturais, tornam mais difícil reconhecer uma relação abusiva.” Afirma a psicóloga Julyana Camata.
A forma como os meninos aprendem a lidar com as próprias emoções também merece atenção. De acordo com a psicóloga, em determinados contextos eles são ensinados a esconder sentimentos para corresponder a expectativas de masculinidade. Essa dificuldade pode prejudicar a comunicação, a resolução de conflitos e a aceitação de rejeições e limites.
Por isso, prevenir a violência não significa apenas ensinar meninas a identificar situações de risco. Também é necessário ajudar meninos a reconhecer os próprios sentimentos, respeitar os limites de outras pessoas e lidar com frustrações sem recorrer ao controle ou à agressividade.
A escola como espaço de prevenção
A escola pode contribuir para a prevenção da violência ao oferecer espaços de diálogo, estimular o pensamento crítico e discutir comportamentos que muitas vezes são naturalizados nas relações sociais.
Julyana defende que as abordagens sejam adequadas a cada faixa etária. Na infância, é importante ensinar sobre o direito ao próprio corpo e o respeito aos limites. Na pré-adolescência, as conversas podem incluir emoções, privacidade e estereótipos. Já na adolescência, é possível aprofundar temas como consentimento, relacionamentos afetivos, pressão dos grupos, violência e uso responsável das redes sociais.
Quando um adolescente reproduz uma fala machista ou um comportamento de controle, a família e a escola podem intervir.
Diálogo, orientação e reflexão acerca daquele comportamento são boas formas de intervenção, evitando apenas punições ou julgamentos que dificultem a compreensão do problema.
Desde 2021 a legislação brasileira, através da Lei Federal nº 14.164/2021, incluiu conteúdos sobre a prevenção da violência contra a mulher nos currículos da educação básica e instituiu a Semana Escolar de Combate à Violência contra a Mulher, realizada anualmente em março.
Para que esse trabalho aconteça ao longo do ano, são necessários planejamento, formação dos profissionais e recursos para desenvolver atividades pedagógicas. Maricélia do Lago, secretária de Assuntos Municipais do Sindicato dos Trabalhadores em Educação no Estado de Rondônia (SINTERO), destaca que a prevenção precisa envolver as equipes pedagógicas e preparar os professores para abordar o tema com os estudantes.
“Em nosso estado, esse é um tema que sempre está em evidência. Há muita violência contra mulheres e meninas, agredidas na família, na rua e também na escola, onde sofrem bullying. Esse é um trabalho que precisa ser desenvolvido nas escolas, por meio das equipes pedagógicas”, afirma Maricélia.
A preocupação ganha ainda mais relevância diante dos dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, segundo os quais Rondônia registrou, em 2025, uma taxa de 2,9 feminicídios por 100 mil mulheres, com 25 vítimas. O cenário reforça a importância de manter a prevenção em evidência durante todo o ano, com ações educativas contínuas, formação dos profissionais e participação das famílias.
A arte como caminho para discutir a violência
Além das palestras e rodas de conversa, professores também recorrem a novas estratégias para aproximar os estudantes do tema e tornar a aprendizagem mais significativa.
Teatro, cinema, redação e outras formas de expressão artística podem aproximar os estudantes de temas complexos por meio da experiência, da criação e do debate. Em vez de apenas receber informações, os jovens têm a oportunidade de questionar comportamentos, interpretar situações e imaginar outras formas de convivência.
Para a professora Taiane Sales, a arte permite abordar questões sociais sem limitar a experiência educativa a discursos moralizantes ou respostas prontas.
As linguagens artísticas podem estimular os estudantes a investigar as causas da violência, reconhecer manifestações que foram naturalizadas e pensar em possibilidades de transformação. Nas artes cênicas, por exemplo, o encontro entre quem cria e quem assiste pode favorecer uma reflexão coletiva sobre experiências e relações sociais.
Durante o mês de agosto, Taiane acompanhou o Projeto Agosto Lilás do MPRO para desenvolver atividades com turmas da educação básica para discutir a violência contra as mulheres. Com estudantes do 9º ano, utilizou o curta-metragem “Contraste”, produzido por meio da Lei Paulo Gustavo, com apoio da Secretaria de Estado da Juventude, Cultura, Esporte e Lazer (SEJUCEL). O projeto pode ser assistido clicando aqui.
Professora Taiane Sales utilizou o curta-metragem Contraste em atividade sobre violência contra mulheres durante o Agosto Lilás. Captura de tela: YouTube, 2026.
O filme tem como protagonista a Palhaça Firmina, personagem que utiliza humor, ironia e performance para provocar reflexões sobre questões sociais, especialmente a violência contra as mulheres. A obra apresenta estatísticas e referências a casos de feminicídio, contrastando a comicidade da personagem com a gravidade da realidade denunciada.
A atividade foi desenvolvida durante um estudo sobre arte pública e suas possibilidades de intervenção nos espaços urbanos. Segundo Taiane, os estudantes participaram com mais entusiasmo, relacionaram o conteúdo artístico a questões sociais presentes no cotidiano e demonstraram interesse pela obra.
A professora avalia que esse tipo de aproximação pode abrir espaço para conversas sobre assuntos difíceis em um ambiente menos formal. A partir da experiência, é possível discutir violência psicológica, moral e física, além de atitudes machistas que acabam sendo tratadas como normais nas relações cotidianas.
Não basta ensinar meninas a reconhecer a violência. Precisamos também educar meninos para que não a reproduzam. A escola tem um papel importante nessa construção, não apenas ao apresentar informações, mas ao criar espaços seguros de escuta, reflexão e responsabilização. Afinal, reconhecer uma violência também significa compreender que podemos ser instrumentos de proteção, tanto para nós mesmos quanto para outras pessoas.”
Professora Taiane Sales durante atividade sobre violência contra mulheres no Agosto Lilás
O acesso à cultura também faz parte desse debate. Taiane chama atenção para as desigualdades nas oportunidades de participação cultural, especialmente nas periferias e nos municípios do interior de Rondônia. Espetáculos teatrais, oficinas de cinema, dança e circo, projetos de grafite e iniciativas de comunicação escolar são algumas das experiências que podem ampliar o repertório dos jovens.
Para ela, projetos desse tipo permitem exercitar habilidades importantes para a convivência, como escutar, negociar, respeitar limites, acolher diferenças e lidar com frustrações. Embora uma atividade isolada não resolva problemas estruturais como o machismo, experiências coletivas podem criar oportunidades para refletir sobre a maneira como cada pessoa se relaciona com as outras.
A professora também defende a cultura como um direito e uma oportunidade de ampliar perspectivas.
Por isso, defender o acesso à cultura não é defender um privilégio ou uma atividade complementar. É defender um direito e uma possibilidade concreta de ampliar horizontes, fortalecer vínculos e construir outras perspectivas de futuro.
A atuação do MPRO na prevenção e no acolhimento
Além das iniciativas desenvolvidas nas escolas, instituições públicas têm atribuições importantes na conscientização, na prevenção e no atendimento de situações de violência.
O MPRO desenvolve o projeto Maria da Penha Vai à Escola, voltado à discussão dos direitos das mulheres, à desconstrução de comportamentos machistas e à prevenção da violência de gênero. Estudantes têm acesso a palestras, rodas de conversa, oficinas, distribuição de cartilhas, vídeos educativos, dinâmicas para identificar comportamentos abusivos e caixas de perguntas anônimas.
Auditório da Escola Estadual Josino Brito, em Cacoal, durante atividade de prevenção à violência contra meninas e mulheres. Foto: MPRO.
Os conteúdos abordam diferentes formas de violência — física, psicológica, sexual, patrimonial e moral —, além de consentimento, limites nos relacionamentos, violência no namoro e riscos relacionados à exposição de imagens íntimas e a outras formas de violência digital.
Dados do Ministério Público registram atividades em diferentes localidades do estado. Em 2024, mais de 2.235 alunos e participantes foram contabilizados em ações realizadas em mais de 30 instituições de ensino, distribuídas por 14 municípios. Em 2025, aproximadamente 1.100 estudantes e professores foram atendidos diretamente em palestras realizadas em mais de 18 escolas e em 12 comarcas participantes.
Para 2026, o documento informa a adesão de 20 Promotorias de Justiça ao projeto e o envio prévio de 10 mil cartilhas educativas. O ciclo de palestras teve início em março e finaliza em novembro deste ano.
O projeto também utiliza atividades culturais para discutir o tema. Uma das iniciativas citadas pelo MPRO foi o concurso de teatro “Uma Vida sem Violência é Direito de Todas as Mulheres”, realizado na comarca de Alta Floresta d’Oeste, com participação de estudantes da Escola Juscelino Kubitschek de Oliveira. A peça vencedora foi apresentada no auditório da Câmara Municipal.
A iniciativa teve repercussão na comunidade e contribuiu para impulsionar a aprovação da Lei Municipal nº 008/2024, que estabelece restrições à nomeação para cargos públicos municipais de pessoas condenadas com base na Lei Maria da Penha.
Trecho do Projeto de Lei nº 8/2024, que proibe nomeação para cargos públicos de pessoas condenadas pela Lei Maria da Penha
Na rede estadual de ensino, a Secretaria de Estado da Educação de Rondônia (SEDUC-RO) desenvolve o Projeto Educação de Paz (Epaz), implantado em 2023. A iniciativa busca fortalecer a cultura de paz, promover o acolhimento e contribuir para identificar situações de risco no ambiente escolar.
Segundo a Secretaria, o projeto envolve equipes pedagógicas e técnicas, psicólogos, assistentes sociais e profissionais das forças de segurança. Entre as ações estão atividades educativas, acompanhamento de ocorrências, atendimento multiprofissional, capacitação de gestores e articulação com a rede de proteção.
Quando a suspeita chega à rede de proteção
Para o Conselho Tutelar, a escola também tem papel fundamental na identificação de possíveis situações de violência. Professores e equipes pedagógicas podem perceber mudanças de comportamento, isolamento, queda no rendimento escolar ou sinais de sofrimento que merecem atenção. Segundo Ana Paula Lima Brito da Silva, conselheira tutelar, as escolas públicas e privadas podem comunicar suspeitas de violência sem precisar comprovar o ocorrido. A partir do encaminhamento, o Conselho avalia a situação e articula as medidas de proteção necessárias com os serviços de saúde, assistência social e demais órgãos competentes.
A avaliação da conselheira reforça a importância de aproximar as instituições que atuam na proteção de crianças e adolescentes .“A prevenção e o enfrentamento da violência exigem identificação precoce, acolhimento sem julgamento, comunicação adequada e atuação integrada da rede de proteção. O fortalecimento dessas parcerias institucionais permite respostas mais rápidas e efetivas, reduz a possibilidade de agravamento das situações e contribui para garantir os direitos, a segurança e o desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes.” afirma a Conselheira.
Nesse processo, o Ministério Público de Rondônia (MPRO) também tem papel relevante ao levar o debate sobre a violência contra meninas e mulheres. A continuidade dessas ações, aliada à formação dos educadores e à articulação com a rede de proteção, é fundamental para que a conscientização se transforme em prática cotidiana.
Prevenir é construir caminhos antes da violência
A prevenção da violência contra meninas e mulheres não se limita ao ambiente escolar. Embora a educação seja fundamental para questionar comportamentos abusivos desde cedo, o enfrentamento também depende de informação acessível, acolhimento às vítimas, formação dos profissionais e articulação entre as instituições responsáveis pela proteção.
Em Rondônia, o Ministério Público do Estado de Rondônia (MPRO) desenvolve, há anos, iniciativas de conscientização e enfrentamento à violência doméstica e familiar. Além do projeto Maria da Penha Vai à Escola, que leva o debate sobre violência de gênero ao ambiente escolar, a instituição mantém ações voltadas ao atendimento das vítimas e à ampliação do acesso aos serviços de proteção.
Entre essas iniciativas estão o MP – Mulher Protegida, que aproxima os serviços do Ministério Público e da rede de proteção de mulheres que vivem em comunidades afastadas das sedes das comarcas; a Sala Lilás, voltada ao atendimento humanizado; a Ouvidoria das Mulheres; e o Núcleo de Atendimento às Vítimas (NAVIT), que atua no acolhimento, na orientação e no encaminhamento de vítimas e familiares aos serviços necessários. O Mapa da Violência Doméstica, por sua vez, reúne dados sobre o problema em Rondônia e pode contribuir para dimensionar a situação e subsidiar o planejamento de ações públicas.
Em 2026, quando a Lei Maria da Penha completa 20 anos, a programação do Agosto Lilás inclui iniciativas para ampliar o acesso à informação e aos serviços de proteção. Entre as iniciativas anunciadas pelo MPRO estão o Portal de Proteção, que reúne informações sobre serviços e canais de atendimento, e uma cooperação com a empresa Urbano Norte para facilitar o deslocamento de mulheres em situação de violência até os órgãos da rede de proteção.
A persistência da violência também foi lembrada por Benedita Nascimento, representante da Rede Lilás, durante o evento de abertura do “Agosto Lilás”. Ao refletir sobre o tempo transcorrido desde a criação da Lei Maria da Penha, ela expressou a indignação diante da permanência da violência doméstica e do feminicídio.
“É muito desagradável estar ainda, após 19 anos da Lei Maria da Penha, tentando encontrar uma saída para enfrentar o feminicídio e a violência doméstica.”
A fala evidencia o tamanho do desafio: mesmo com avanços legais e a ampliação dos serviços de proteção, ainda é necessário encontrar caminhos para impedir que a violência continue atravessando a vida de meninas e mulheres.
Prevenir exige mais do que agir depois da agressão. É ensinar, desde cedo, que respeito não combina com controle, que ciúme não justifica humilhação e que nenhuma pessoa tem o direito de decidir sobre a vida de outra. É garantir que a informação chegue a quem precisa, que o acolhimento não culpe a vítima e que a rede de proteção esteja preparada para agir.
Prevenir é abrir caminhos antes que a violência os feche. É permitir que meninas cresçam sem confundir controle com amor, que mulheres façam suas escolhas sem temer represálias e que nenhuma vítima precise enfrentar sozinha aquilo que a sociedade tem o dever de combater.
Porque uma menina livre é aquela que pode imaginar o próprio futuro sem medo. E uma mulher livre é aquela que pode vivê-lo com voz, autonomia e segurança. Construir essa realidade é fazer com que meninas e mulheres possam viver por inteiro, em todos os espaços, sem que a liberdade lhes custe a própria segurança.
* Jéssica de Carvalho Arrais é Acadêmica da Universidade Federal de Rondônia
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