Com campanhas que não convencem e uma multa congelada há 26 anos, o Brasil mantém o voto obrigatório apenas no papel
No último domingo, 4 de outubro, mais de 33,4 milhões de brasileiros aptos a votar simplesmente não foram às urnas. A abstenção chegou a 21,08%, a maior em um primeiro turno de eleições gerais desde 1998.
E isso num país em que, segundo a Constituição (inciso I do § 1º do art. 14) , votar é obrigatório.
A pergunta que precisa ser feita é simples e incômoda: essa obrigação realmente assusta alguém?
A resposta, olhando para a realidade, parece ser não.
A abstenção recorde não é um mistério. É o resultado de um sistema que falha duas vezes. Falha em convencer, porque as campanhas não alcançam quem decidiu ficar em casa. E falha em punir, porque a sanção virou taxa de conveniência.
Uma multa do tamanho de um cafezinho
Quem não vota e não justifica a ausência paga somente o valor R$ 3,51 por turno. Isso mesmo, o valor de um cafezinho na Mercearia da Dona Cosma em Porto Velho, local simples, sem muito requinte.
O valor é um fóssil. O Código Eleitoral de 1965 previa multa de 3% a 10% do salário mínimo. Proibida a vinculação ao salário mínimo pela Constituição de 1988, a Justiça Eleitoral passou a usar a Ufir, extinta em 2000. A base de cálculo congelou em R$ 35,13, valor hoje previsto no art. 133 da Resolução TSE nº 23.659/2021. Em 2000, a multa máxima equivalia a cerca de 2,3% do salário mínimo. Hoje, a 0,22%.
O pagamento se faz por Pix, pelo celular, em segundos. Quem declara não ter condições de pagar fica isento, bastando a declaração. As restrições previstas em lei, como a proibição de tirar passaporte ou de tomar posse em concurso público, desaparecem no instante em que o débito é quitado. E quem falta a três eleições seguidas tem o título cancelado, mas pode regularizá-lo depois, seja pagando a irrisória multa ou declarando não ter condições financeiras.
Na prática, o que deveria ser sanção virou taxa de conveniência. Não é exagero. É matemática eleitoral.
A conta que o eleitor faz
Façamos, então, as contas do eleitor. De um lado, R$ 3,51, valor que pode nem ser pago, bastando declarar-se pobre. Do outro, o domingo. Sair de casa, enfrentar deslocamento e fila, sol ou chuva, abrir mão do descanso no lar, do trabalho extra, do almoço em família no balneário ou na piscina.
Diante desse cenário, o eleitor pensa bem no custo que terá em sair de casa e ir às urnas. E, para milhões de brasileiros, a conta simplesmente não fecha a favor do voto.
Convencer não tem sido suficiente
É preciso reconhecer que a Justiça Eleitoral tem feito a sua parte. São campanhas de conscientização no rádio, na televisão e nas redes sociais, alertas no aplicativo e-Título e ações dos tribunais regionais em escolas, comunidades indígenas e quilombolas. Desde 2024, por decisão do Supremo Tribunal Federal (ADPF 1013), o transporte coletivo é gratuito no dia da eleição. Em 2026, o TSE criou o programa Seu Voto Importa, que leva de casa até a urna eleitores com deficiência ou mobilidade reduzida.
Segundo o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, o índice do primeiro turno ficou dentro do esperado pela Corte, mas está longe de ser considerado ideal. “Talvez seja preciso intensificar nossas ações, principalmente entre o público da terceira idade”, disse durante entrevista coletiva após o encerramento da votação.
O esforço é real e merece registro. Mas não tem sido suficiente para convencer o eleitor do seu dever de civilidade. A campanha educa, o transporte facilita, mas nenhum dos dois alcança quem já fez as contas e decidiu ficar em casa. Jairo Nicolau, da Fundação Getulio Vargas (FGV), antecipou o problema uma semana antes do pleito. “Agora, o e-Título facilitou muito a abstenção”, disse à BBC News Brasil.
O recorde de 2026 veio com ônibus de graça e propaganda institucional no ar.
Quem fica em casa
O TSE ainda não divulgou o perfil dos ausentes de 2026, o que só deve ocorrer depois do segundo turno. Mas as últimas eleições gerais deixam pistas claras. Em 2022, a maior abstenção ficou entre os maiores de 70 anos, cerca de 59%, justamente a faixa em que o voto é facultativo. Entre os obrigados a votar, o topo do ranking ficou com os jovens adultos. Na faixa de 21 a 24 anos, a ausência chegou a 23,39%. Na faixa de 18 a 34 anos, saltou de 18,4% em 2014 para 21,3% em 2022, enquanto, entre os eleitores com 60 anos ou mais, caiu de 37,1% para 34,5%.
Os números contam uma história incômoda. O idoso que falta não descumpre dever algum. Já o jovem adulto que falta descumpre a lei, e o faz cada vez mais. É a fase da vida em que se muda de cidade sem transferir o título, em que a confiança nas instituições é mais baixa e em que a multa pesa menos que qualquer compromisso de domingo. Para esse eleitor, a única sanção que incomoda aparece na hora de tirar o passaporte ou tomar posse em concurso. E ela se resolve com um Pix de R$ 3,51.
Na prática, a abstenção está migrando para o público que a lei obriga, e que a lei não consegue alcançar. Com todo o respeito à preocupação do presidente do TSE com a terceira idade, o desafio maior está na outra ponta da pirâmide.
O recorte por escolaridade completa o retrato. Em 2022, a abstenção foi de 52% entre os analfabetos e de 12,4% entre os diplomados. Quem deixa de votar não é um eleitor qualquer. E uma obrigação sem consequência só vincula quem ainda leva a regra a sério.
A quem interessa
Por que ninguém corrige a multa? O projeto do novo Código Eleitoral, aprovado pela Câmara em 2021 e parado no Senado, propõe elevá-la para R$ 5. Corrigida apenas pela inflação, ela já passaria de R$ 27.
A resposta incômoda é que o arranjo convém a quem está no poder. Elevar a multa custa votos e manchetes. Manter a obrigatoriedade no papel preserva a legitimidade do sistema. E uma abstenção alta, concentrada entre os mais pobres e menos escolarizados, aumenta o peso das bases organizadas e fiéis de quem já tem mandato.
Por outro lado, não podemos deixar de destacar que o valor arrecadado com as multas eleitorais é revertido em prol dos partidos políticos, pois integra o Fundo Partidário, nos termos do inciso I do art. 38 da Lei nº 9.096/1995. Não há para onde correr. Ao que nos parece, os beneficiados preferenciais imediatos serão os políticos, seja com a multa paga, seja com o eleitor ausente.
A cientista política Silvana Krause, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), analisou as eleições municipais de 2024 em Porto Alegre, onde o prefeito candidato à reeleição obteve no primeiro turno menos votos do que a soma de abstenções, brancos e nulos. Foi direta. “Mais fundamental é a abstenção”, afirmou ao Brasil de Fato.
Sem engajamento do eleitor, a representação perde lastro, e quem governa passa a falar em nome de uma maioria que não foi às urnas.
Não é cláusula pétrea
Há quem trate o voto obrigatório como intocável. Não é. O inciso II do § 4º do art. 60 da Constituição Federal protege como cláusula pétrea o voto direto, secreto, universal e periódico. A obrigatoriedade ficou de fora dessa lista.
Por isso, ela pode ser suprimida por emenda constitucional, aprovada em dois turnos, em cada Casa do Congresso Nacional, por três quintos dos votos, como exige o § 2º do art. 60. Em outras palavras, o voto obrigatório é uma escolha política, e não um dogma constitucional. E escolhas políticas podem, e devem, ser revistas quando deixam de funcionar.
Duas saídas honestas
Que fique claro. Este texto não é um convite à abstenção. Votar continua sendo dever constitucional e, mais do que isso, o principal instrumento que o cidadão tem para decidir os rumos do país. O que se propõe aqui é encarar a realidade de frente.
O segundo turno, em 25 de outubro, será novo teste. Aplicada a variação histórica entre turnos, a lógica é de que a abstenção fique entre 20,7% e 22,9%. Mesmo no cenário mais favorável, mais de 32 milhões de brasileiros não votarão.
Há, portanto, duas saídas honestas. A primeira é assumir o voto facultativo por emenda constitucional, com o debate que a mudança merece. A segunda é dar à obrigação a força que a Constituição promete, com multa em reais atualizada todo ano, proporcional à renda, agravada para quem falta sempre e com isenção comprovada para quem não pode pagar, sem prejuízo de campanhas de convencimento mais eficazes.
O que não se sustenta é o meio-termo atual, em que o voto é obrigatório para a lei e opcional para o eleitor. E ainda há tempo. Qualquer mudança aprovada até outubro de 2027 já valerá para as eleições municipais de 2028.
O que esperamos é que o exercício da democracia seja estabelecido de forma clara, num sistema que possibilite sempre, ao final, o benefício para o máximo de pessoas que integram o espaço governado.
Porque, quando votar vira opção e faltar vira negócio, quem perde não é apenas o eleitor ausente. É a democracia.
* Edirlei Souza. Advogado. Palestrante. Professor. Mestrando em Políticas Públicas. Especialista em Direito Eleitoral, Direito do Servidor Público, Direito Sindical e Comunicação Pública. Foi servidor do TRE/RO por mais de 16 anos.
Acidente aconteceu nas proximidades da Estrada dos Periquitos, em Porto Velho.
Um caminhão caçamba carregado de areia tombou às margens da BR-364, na manhã desta quinta-feira, nas proximidades da Estrada dos Periquitos, em Porto Velho (RO). O motorista ficou ferido e precisou ser encaminhado para uma unidade de saúde.
De acordo com as informações iniciais, o veículo seguia no sentido Candeias do Jamari–Porto Velho quando teria sido fechado por outro automóvel, que ainda não foi identificado.
Para evitar uma possível colisão, o condutor tentou desviar, mas acabou perdendo o controle da direção. Com isso, o caminhão tombou às margens da rodovia, espalhando a carga de areia.
A Polícia Rodoviária Federal (PRF) foi acionada para atender à ocorrência e organizar o trânsito no trecho.
Até o momento, não foram divulgadas informações atualizadas sobre o estado de saúde do motorista. As circunstâncias do acidente deverão ser apuradas.
Acidente no km 43 da rodovia federal, em Candeias do Jamari, deixou policiais feridos; viatura policial serviu de escudo e impediu que carro de passeio com casal e
criança fosse prensado.
Um grave acidente de trânsito envolvendo uma viatura da Polícia Militar de Rondônia e duas carretas deixou policiais militares da Força Tática do 5º Batalhão (5º BPM) feridos na tarde desta segunda-feira, dia 26 de outubro de 2026. A colisão ocorreu no quilômetro 43 da BR-364, na região do trecho conhecido como Salsalito, no município de Candeias do Jamari.
Conforme as informações apuradas no local, a guarnição policial encontrava-se parada na rodovia devido a uma retenção do sistema “pare e siga”, mantendo todos os sinais luminosos de emergência do veículo oficial ligados. Logo à frente da viatura aguardava um automóvel Fiat Mobi ocupado por um casal e uma criança, posicionado atrás de uma primeira carreta.
Repentinamente, uma segunda carreta que trafegava na mesma direção atingiu com violência a parte traseira da viatura da Força Tática. O forte impacto causou lesões nos policiais. O militar encarregado da condução do veículo sofreu um trauma na região da cabeça e precisou ser socorrido com urgência para atendimento médico hospitalar.
Apesar da gravidade da colisão, o porte da viatura policial atuou como barreira física de proteção para os ocupantes do Fiat Mobi. De acordo com o relato das equipes que atuaram na ocorrência, caso o veículo policial não estivesse posicionado naquele ponto, o carro de passeio teria sido prensado contra a carreta que estava à frente, o que poderia ter resultado em vítimas fatais.
Equipes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) foram acionadas para controlar o tráfego no trecho, isolar o perímetro e registrar o boletim de ocorrência de trânsito. A Perícia Técnica investigará as causas e responsabilidades pela colisão
O mercado do boi gordo iniciou a semana com ritmo lento de negociações em diversas regiões do país. Segundo levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), compradores e vendedores adotaram uma postura cautelosa nesta segunda-feira (26), acompanhando as movimentações do dólar e do mercado financeiro antes de definir novas operações.
Apesar da baixa liquidez, os preços permaneceram firmes nas principais regiões pecuárias, com valorizações pontuais provocadas pela menor disponibilidade de animais para abate.
Em São Paulo, as negociações ocorreram entre R$ 380 e R$ 390 por arroba, mantendo os patamares observados anteriormente. O Indicador do Boi Gordo Cepea/Esalq fechou estável, cotado a R$ 381,40 por arroba.
Pará e Paraná registram altas na arroba
No Pará, a disposição dos frigoríficos para negociar encontrou resistência dos pecuaristas em fechar novos negócios. Esse cenário levou a aumentos de R$ 5 a R$ 15 por arroba nos valores ofertados pelos compradores.
Com isso, as negociações ocorreram em torno de R$ 365 por arroba. As escalas de abate das indústrias frigoríficas variaram entre quatro e sete dias.
No noroeste do Paraná, a menor disponibilidade de animais também pressionou as cotações para cima. O preço do boi gordo registrou alta de R$ 5 por arroba, com negócios realizados entre R$ 385 e R$ 390.
Escalas de abate limitam negociações em Mato Grosso do Sul
Em Dourados, Mato Grosso do Sul, o mercado permaneceu praticamente paralisado na segunda-feira, em meio aos reflexos das eleições.
Segundo agentes consultados pelo Cepea, a expectativa é de manutenção do ritmo lento de negociações ao longo desta semana, uma vez que boa parte dos frigoríficos da região já possui escalas de abate completas até o início de novembro. As poucas operações registradas ocorreram com preços estáveis.
Carne bovina enfrenta demanda enfraquecida no atacado
No mercado atacadista da Grande São Paulo, as negociações também foram marcadas pela cautela.
De acordo com o Cepea, a proximidade do fim do mês e o período prolongado de chuvas têm contribuído para reduzir o ritmo de saída da carne bovina, deixando os compradores mais resistentes à realização de novas aquisições.
Mesmo diante da demanda enfraquecida, a carcaça casada bovina apresentou ligeira valorização nesta segunda-feira, com preço médio de R$ 26,15 por quilo à vista. Para esta terça-feira (27), a expectativa é de retomada gradual das negociações, após um início de semana marcado pela baixa liquidez.
O comportamento dos frigoríficos, a disponibilidade de animais terminados e as condições de comercialização da carne bovina devem continuar influenciando a formação dos preços nas diferentes regiões pecuárias.
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